Ciencia y crianza
Educar em valores sem sermões: porque é que uma história ensina mais do que mil conversas
Por Astrid Barrie
"Quantas vezes é que eu tenho de te dizer?". Se alguma vez disse esta frase — e quem não a disse —, já conhece por experiência própria o grande segredo da educação em valores: os sermões não funcionam lá muito bem. Pode explicar vinte vezes porque é que se deve partilhar, porque não se mente ou porque é preciso ter paciência, e mesmo assim ver a mensagem escorregar. Não é que o seu filho não a ouça. É que o cérebro humano não foi feito para aprender com discursos. Foi feito para aprender com histórias.
A experiência de Stanford: histórias 1 — dados 0
Um dos exemplos mais citados sobre o poder das histórias vem da Universidade de Stanford. O professor Chip Heath, num exercício com os seus alunos da escola de negócios que mais tarde popularizou no livro Made to Stick, pedia aos estudantes que dessem discursos de um minuto, em que a maioria incluía dados e estatísticas e apenas alguns usavam uma história. Passado um bocado, pedia à turma que recordasse os discursos. O resultado: cerca de 63% lembravam-se das histórias, e apenas à volta de 5% se lembravam de alguma estatística concreta.
E isto com adultos treinados para analisar informação. Agora imagine a mesma competição dentro da cabeça de uma criança de quatro anos: de um lado, "deves ser generoso porque partilhar é importante"; do outro, a história de uma menina que não queria emprestar o seu dragão de peluche e descobre o que acontece a seguir. Não há comparação possível.
Convém, já agora, ser rigoroso quanto ao que a ciência diz e não diz: talvez já tenha lido algures que "as histórias são 22 vezes mais memoráveis do que os dados", um número que costuma ser atribuído ao psicólogo Jerome Bruner. Esse número concreto não aparece em nenhuma investigação publicada de Bruner: é um dado apócrifo que foi sendo copiado de blogue em blogue. Não precisamos dele. O exercício de Heath e a evidência sobre narrativa e memória bastam para o argumento honesto: lembramo-nos de histórias muitíssimo melhor do que de dados soltos.
O que acontece no cérebro quando conta uma história
Porque é que as histórias ficam e os sermões se evaporam? Uma pista fascinante veio de um estudo de Stephens, Silbert e Hasson publicado na PNAS em 2010. Os investigadores puseram num scanner cerebral uma pessoa a contar uma história verídica e, depois, pessoas a ouvir a gravação, e compararam a atividade dos dois cérebros.
Encontraram algo chamado acoplamento neuronal: a atividade cerebral do ouvinte sincroniza-se com a do narrador; o cérebro de quem ouve "acopla-se" ao de quem conta, seguindo os seus padrões com um pequeno atraso (e, nalgumas zonas, até antecipando-os). E o dado-chave: quanto maior era o acoplamento entre narrador e ouvinte, melhor era a compreensão da história. Quando o ouvinte não compreendia (por exemplo, se a história estava numa língua que não falava), o acoplamento desaparecia.
Pense no que isto significa para a história da noite: quando conta uma história ao seu filho e ele está agarrado a ela, os padrões cerebrais dele estão a sincronizar-se com os seus. Não lhe está a transmitir informação; está, num sentido bastante literal, a partilhar uma experiência mental. A criança não ouve que a coragem é importante: vive o medo da personagem e a decisão de seguir em frente. É por isso que a moral de uma história não fica arquivada como uma norma, mas como algo que aconteceu a alguém de quem ela gosta.
Da história ao recreio da escola: o papel do faz de conta
Há um terceiro elo nesta cadeia, e é o que as crianças fazem depois da história: brincar a ser. O cavaleiro, a exploradora, o dragão bondoso. Essa brincadeira de faz de conta (pretend play) não é tempo perdido entre histórias: é onde a criança processa e ensaia o que as histórias lhe deram.
A investigação de Sandra Russ e Claire Wallace sobre o faz de conta, resumida neste artigo do American Journal of Play, mostra que a qualidade do faz de conta na infância prediz a criatividade e o pensamento divergente anos mais tarde. As crianças que hoje brincam a inventar mundos e histórias são as que amanhã geram mais ideias, e mais originais. As histórias alimentam a brincadeira, a brincadeira ensaia emoções e dilemas, e desse ensaio nascem a empatia e a criatividade. Um sermão não dá material para brincar; uma história dá.
Como educar em valores com histórias (sem estragar tudo)
O mecanismo é potente, mas pode desligar-se sem querer. Algumas ideias para deixar a história fazer o seu trabalho:
- Não explique a moral no fim. Se fechar o livro e acrescentar "vês? É por isso que se deve partilhar", acabou de transformar a história num sermão. Confie na história.
- Pergunte em vez de concluir. "Porque achas que o urso ajudou o pássaro?" deixa que seja a criança a formular o valor pelas suas próprias palavras, que é como ele fica mesmo com ela.
- Escolha histórias em que o valor se veja em ação, com uma personagem que hesita, se engana e decide, não personagens perfeitas que recitam virtudes.
- Ajuste o valor ao momento que a criança vive. Semana de brigas por causa dos brinquedos? Histórias de generosidade. Vem aí um irmão mais novo? Histórias de ciúmes superados. A história certa no momento certo vale por dez genéricas.
- Deixe a história transbordar para a brincadeira. Se no dia seguinte ele quiser disfarçar-se da personagem, alinhe: é aí que a aprendizagem se está a consolidar.
Escolher o valor de cada noite
É aqui que a tecnologia pode dar uma ajuda sem tirar a alma ao assunto. Na imagins, quando cria uma história para o seu filho, escolhe o valor que quer que a história trabalhe — generosidade, coragem, paciência, honestidade… — e a aventura constrói-se à volta dele, com o seu filho como protagonista que hesita, tenta e consegue. Sem morais recitadas nem personagens de cartão: o valor vai dentro da história, que é onde o cérebro de uma criança o sabe encontrar.
Mil conversas esquecem-se antes de chegar ao pequeno-almoço. Uma boa história, contada na voz certa e no momento certo, pode acompanhar o seu filho toda a vida. Os valores não se pregam: contam-se.